"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

25 de out de 2011




Circo clandestino

Às vezes eu virava
a primeira bailarina,
e dançar debaixo da lona
com sapatilhas de prata
era como acender cristais
numa noite muito escura,
e ia voando, tocando estrelas,
domando as nuvens,
rodando o mundo,
no meu circo clandestino.

Roseana Murray

23 de out de 2011




Tudo o que eu tinha pra te dizer...
Ficou amarrado no rabo do vento...

Se perdeu no tempo... que enfim passou!

Ficou preso na garganta... arranhando
minha fala insana... de línguas estranhas.

(Falas mansas... se decompondo... na solidão da sala...
de tristezas brancas... tantas!)

Se teceu na teia de silêncios das aranhas... virou arabescos...
Enevoados violáceos de incensos... tão intensos!

Ficou ribombando no peito... eco de um coração se debatendo...
Se moldando num casulo de medos.

Ah!... Tanto que eu tinha pra te dizer!!!
Antes... durante e depois de te perder...

MarciaDoM

22 de out de 2011




Nevoeiro

Hoje tua ausencia desceu sobre os telhados
como um nevoeiro fora da estação
denso e perturbador.

A mata se fechou nos seus queixumes
e pássaro algum ousou atravessar
a minha agonia silenciosa.
Nem a lua ociosa cintilou sobre os outeiros.

Ao longe, apenas o vento vem me contar que choras
que choras como eu, nossos sonhos esfacelados...
perdidos entre as estrelas e as areias...

£una

14 de out de 2011




Sabes o que notei em mim? Que a minha pele já não é como antes, que mudou sem que tenha descoberto uma ruga a mais. São sempre as mesmas rugas, as que tive aos vinte anos, só que cavadas, acentuadas. É um sinal, e de quê? De uma maneira geral, sabe-se onde isto nos leva: ao final. Mas além disso? Com que rostos vamos desaparecer, tu e eu? Não é envelhecer que me assombra, mas a desconhecida que sucede a uma desconhecida.

Ingeborg Bachmann

9 de out de 2011



E a música parou

Rabiscou partituras no corpo
e dançou como se fosse bailarina e menina
desejou ter o alcance do som
e pudesse estar em magia
e essa falta que ela sentia
pensou ser destino

onde anda aquele menino
que contava poesia pra ela?
e a melodia que vem da janela e ecoa na noite...

Esse vazio… Uma falta de pele… uma falta de jeito…
Não entendeu direito… mas seguiu ouvindo a canção
e no peito esse aperto de mão, te espremendo, tirando de mim
A canção que fala de amor, de alguém que no fim não voltou...

Rabiscou partituras no corpo e a música parou…

Mariana Gouveia

2 de out de 2011



O tempo da rosa

será que você vai me amar
depois de todo tempo que passar?
quando eu estiver vendo menos
quando estiver tremendo mais
quando a poesia for sendo prosa
quando as pétalas dessa tua rosa
for derrubada pelos ventos outonais?

Cáh Morandi

30 de set de 2011




Casa

Procuro minha casa
morando em todas as casas do mundo.
Contemplo o mar de todas as janelas
e a vida dos armários
em busca de segredos escondidos.

Passeio nas varandas
nas paisagens
com os olhos curiosos de um herdeiro.

Existe em cada casa um ser incerto
que já se foi e ficou
rondando as sombras
durando paralelo
como um perfume
um voo
fotografado e preso na gaveta.

E numa tarde
à luz de uma vidraça contra o vento
se alguém disser – lembra dele?
o ausente convocado será
por um momento
pleno como um coração que bate forte.

Adelaide Amorim

25 de set de 2011




Encontro

Visito esse lugar.
Procuro-te nesse recanto habitual.
Sei que não estarás lá,
mas finjo ignorá-lo,
procuro pensar que saíste,
que saíste há pouco,
numa ausência breve,
como se tivesses saído
para logo regressares.
Quando chegasses, se tu chegasses,
dir-te-ia: Tu lembras-te?
E o verbo acordaria ecos,
nostalgias distantes,
velhos mitos privados.
Sei que não virás,
conjecturo até, por vezes,
teus distantes, inúteis
diálogos numa praça gris
que imagino em tarde de invernia.
Então disfarço, ponho-me
a inventar, por exemplo,
uma longilínea praia deserta,
uma fina, fria, nebulosa
praia
muito silenciosa e deserta.
Pensando nela fito de novo
este lugar e digo para mim
que apenas partiste
por um breve instante.
E sigo. E de novo protelo
este encontro impossível.

Rui Knopfli

13 de set de 2011




De perguntas e desafinos

que acorde é esse
que sintonia é essa
que te deixa adormecida
tão fora do tom
não mantendo a forma do acordo
feito com a outra face no espelho?

que face é essa
que esconde o choro
do samba rasgado
e te derrama em jazz
ou em valsa solo?

(com quantos bemóis
se faz o limite do desafino?)

Beth Almeida

11 de set de 2011




Duas

Somos duas
Não gêmeas, ambas fêmeas,
Somos duas.
Uma destra, outra sinistra,
Uma levada, outra anarquista.
Uma sofisticada, outra caseira,
Uma bem amada, outra presepeira.

Somos duas.
Uma que ama, outra que reclama.
Uma que vence, outra que convence.
Uma que estuda, outra arquiteta.
Uma selvagem, outra irrequieta.

Somos duas.
Uma te quer, outra te repele
Uma é mulher, outra mademoiselle.
Uma sente muito, outra é prisioneira.
Uma guarda tudo, outra é fuxiqueira.

Somos duas.
Uma livre, libertina.
Outra simples, na cozinha.
Uma ardente, sensual.
Outra silente, casual.

Somos duas
Somos opostas
Somos compostas
Somos dispostas
A ser uma só.

Lílian Maial

10 de set de 2011



Janela sobre uma mulher

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa
casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me
beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

Eduardo Galeano

8 de set de 2011



Mãos astutas de princesa

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

António Franco Alexandre

4 de set de 2011



Eu fui uma mulher marítima,
as rugas chegaram antes.

Eu fui uma mulher marítima,
paisagem e pêssego,
uma faísca
entre a corda do barco
e a rocha.

Eu fui o que não sou.
Depois que inventaram o inconsciente,
a verdade fica sempre para depois.

Fabrício Carpinejar

31 de ago de 2011



Sótão

Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão

30 de ago de 2011



O lento trabalho das aranhas

(...)

Aqui nesta cripta está o relento,
branco e mole, criado
na escuridão e no silêncio. Branco e sem olhos.
Branco e mole, onde
se ouve o lento trabalho
das aranhas no fundo.
- Sentiste
o teu pensamento avançar
mais um passo
no silêncio?
Sentiste-o avançar no silêncio?
Dentro de cada ser ressurgem os mortos.
A noite com outras noites em cima.
Há como um assassinato de que
se não ouvem
os gritos.
O negro sol.
Lepra.
As canduras.

Só a água fala nos buracos.

(...)

Herberto Helder

29 de ago de 2011


Não encontro o retrato

Não, não encontro o retrato.
Estavas de perfil, a luz de cinza
caía-te dos braços,
da casa próxima o fumo

subia devagar os últimos degraus
do outono, um cachorro
saltava no terreiro, não tardaria
a escurecer.

Estavas de perfil, a mão acompanhando
no regaço a rosa que te dei.
Deixa-a ficar e ser,
a mão, rosa também.

Eugénio de Andrade

28 de ago de 2011


Lembro

Lembro-me de ser sereia de olhos líquidos,
olhos aquário com peixes nadando devagar.
Lembro o canto suave
[ chamando o luar grávido de agosto ]
e de dançar na praia das tuas mãos macias.
Lembro o toque, o deslizar das mãos
no corpo vestido de algas e delícias.
Lembro as primícias de mil e uma noites
de astros acesos a transbordar de apelos.
No vagar dos sonhos serei sereia indefinidamente.

Maripa

22 de ago de 2011


Receio que ele me quis dar uma
noite igual à que eu lhe dei; mas,
se foi por isso que o fez, soube
vingar-se mal, pois esta noite foi
apenas a terça parte da sua; além
disso, o frio era de outra
natureza.

Giovanni Boccaccio

21 de ago de 2011


Requiescat

De meu mar, ofereço-te as ondas
e as poéticas conchas
que minhas praias te trazem
Tais suaves mistérios te concedo,
mais as algas, e as gaivotas
que bicam tecidos de luz na tarde.

Povoados de ti, de mim,
os barcos que chegam e ardem.

Adere-te, pois, ao sal que e mim te chama,
molha teus pés em espuma e encanto,
cobre teu rosto
nas claras águas que o dia me abre.

(Sosseguem, minhas dorsais;
Descanse meu leviatã escuso.)

Fernando Campanella

20 de ago de 2011


Desci um milhão de escadas

Desci, dando-te o braço, ao menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás é o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve nossa longa viagem.
A minha dura ainda, mas já não me ocorre pensar
nas conexões, nas reservas,
nas ciladas, nos vexames dos que crêem
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja melhor.
Contigo as desci porque sabia que de nós dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que tão ofuscadas,
eram as tuas.

Eugenio Montale

16 de ago de 2011


Nomeio-te...
cristais de luz
adágio melancólico
neste estar sem te ter
sonata inacabada
a desmaiar na tarde
a preencher ausências
a ganhar distância.

Penduro o teu olhar
na sombra da magnólia
que floriu no meu ventre.

Maria Aurora Carvalho Homem

15 de ago de 2011


O guarda-chuva

Nas manhãs de inverno
o homem transpunha a porta
e, sob a asa negra do guarda-chuva,
transportava a solidão.

No comboio,
ela entrava de roldão
e em cada rosto se estampava;
no trabalho,
por onde passeasse a sua vida morta,
a solidão medrava.

À noite, apenas regressado,
fechava a asa,
e deixava de novo a solidão
à solta,
pela casa.

Manuel Filipe

14 de ago de 2011


24 horas

Enrolo o dia sobre mim.
Para lá do casulo soam trombetas
de maus augúrios
sopram os ventos fumegantes
que trazem sangue no dorso
e a tempestade cavalga o horizonte.

Alice Daniel

11 de ago de 2011


Vespertino

A tarde cai num silêncio de cansaços
do sul as nuvens chegam
como flâmulas
e sobre nós respiram
leves as folhas
de sobreiros e acácias
que perduram

sobre o muro
esquecido
aberto o livro:

«não conheci o desvario do amor senão quando me esforcei
de todas as maneiras por curar-me dele»

eu amava estes lugares onde as sílabas fulgem a floração do corpo

mas as palavras já não têm tal rosto

na tarde que finda
compõem ainda uma gramática –
a do silêncio

Soledade Santos

9 de ago de 2011


Décimo Andar

Há os que optam por fechar os mortos
à chave
nos sotãos ou na cave
da memória
Por mim prefiro deixar os meus à solta
a povoar o meu dia e o jardim suspenso
do meu décimo andar
como pássaro poisando
como músicas indo e vindo
no vento.

Teresa Rita Pinto

8 de ago de 2011


Alvorada

Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.

Rita Apoena

7 de ago de 2011


Maiwu

o pretérito circula
na espiral de labirintos
no tempo sem fim

na dor que hoje vaza
na rigidez dos erros
na penumbra da casa

mas no caracol esperança
o sorriso cintila
ao renascimento do amanhã

Michèle Sato

6 de ago de 2011


Testamento

Eu,
Lucille Clifton,
por este meio atesto
que naquele quarto
havia uma luz
e nessa luz
havia uma voz
e nessa voz
havia um suspiro
e nesse suspiro
havia um mundo.

Um mundo um suspiro uma voz uma luz e
eu
sozinha
num quarto.

Lucille Clifton

5 de ago de 2011


Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal

4 de ago de 2011


Tu

Quando não estás,
são íngremes os muros dos dias
e o frio é fundo…

Tu: palavra de ordem
Santo-e-Senha
Manifesto
de mim.

Teresa Sá Couto

3 de ago de 2011


Escrevo-me.
Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto.
E o que sinto é o que existo e o que sou.
Escrevo-me nas palavras mais ridículas:
amor, esperança, estrelas,
e nas palavras mais belas:
claridade, pureza, céu.
Transformo-me todo em palavras.

José Luis Peixoto

2 de ago de 2011


Pouco esperar

Guardas tudo de mim –
não sei se entendes
a ternura da dádiva –
também não te pergunto…
Para quê?
O meu amor é isto:
desejar-te em segredo
pouco esperar do que vier de ti
E nada te pedir.

Maria Aurora Carvalho Homem

28 de abr de 2011


Descanso

Quando durmo, nada sinto,
e em mal e bem indistinto
nada posso conhecer:
não sei aquilo que sou,
nem o que fui, nem se vou
saber o que devo ser.

Pierre de Ronsard
(trad. Vasco Graça Moura)

27 de abr de 2011


Vivendo, eu não representava para mim mesmo nenhuma imagem de mim. Porque tinha, então, de me ver naquele corpo, como uma imagem necessária de mim? Imagem que estava ali, na minha frente, quase inexistente, como uma aparição. (…) E eu podia não me conhecer assim. E se por exemplo, nunca mais me visse a um espelho?

Luigi Pirandello

26 de abr de 2011


Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida ...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago ...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim ...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

25 de abr de 2011


Amanhã

Um outro assunto isento
queria aqui deixar.
Por exemplo.
Levanto-me cedo, tomo o pequeno almoço
fumo um cigarro, ou quantos?

Depois de pronta desço
das escadas os três lanços.
E logo em baixo café, tabaco, jornais.
Inusitado no poema –
queriam um lírio, uma açucena –
e não coisas tão banais...

Helga Moreira

24 de abr de 2011


Solto-me ao passar pelo mundo

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido -
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? Será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro

Teresa Balté

23 de abr de 2011


Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.

Ana Salomé

22 de abr de 2011


Explicação das Árvores e de Outros Animais

Estou dentro de paredes brancas.
Quatro paredes: a minha cela,
O frio, a solidão e o meu catre.
A luz entra sempre de noite.

Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.

Tenho um pequeno sonho de uma janela para abrir:
E que paisagem não seria estar feliz!

Daniel Faria

21 de abr de 2011


Olhem para mim

(…)

É claro que podia não acontecer. Uma coisa, logo que conhecida, jamais poderá ser desconhecida. Apenas poderá ser esquecida. E, na medida em que domina o tempo, enquanto puder ser lembrada, indicará o futuro. Compreendo agora que embora fique sentada no meu quarto, a envelhecer, muito tristemente, sozinha, tenho que viver com esse conhecimento. O telefone pode tocar, esta noite, ou amanhã: já não importa.

(…)

Anita Brookner

20 de abr de 2011


textura póstuma

sem sobrenome na identidade vencida
tem a digital impressa a sangue
da tragédia coagulada, ameaça fazer a tréplica
sai do banho enrolada no limo, cheirando a mofo
no seu dedo não tem mais aliança
do lado direito da cama concubina o desamparo
toma café com lembranças, adoçado com amargor.

Beth Almeida

19 de abr de 2011


Travessia

Amo-te — ela murmurou-lhe ao ouvido.
Ele acreditou.
E foram representar a palavra
para um banco de jardim,
o rio morrendo-lhes nos olhos,
quase no mar.
Ela deu-lhe a boca.
Ele acreditou na travessia,
no castelo do outro lado.
Inventou um barco.
Um remo para ele, outro para ela.
Mas não atravessaram o sonho.
Vogaram em círculo, sempre o mesmo círculo.

Ela não remou.

Vitorino Ventura

18 de abr de 2011


Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.

Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.

Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.

Amalia Bautista

17 de abr de 2011


Casa vazia

Essa casa, onde atrás de cada porta fechada
me descobrias parques, jardins, nascentes...
um imenso espaço risonho aberto à floração da luz,
essa casa onde eu era contigo um curso de água
ou um desejo de vôo,
essa casa está vazia.

Eugénia de Vasconcelos

16 de abr de 2011


Cansaço

Por trás do espelho quem está
De olhos fixados nos meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao deus-dará
Deixando os olhos nos meus.
Quem dorme na minha cama,
E tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama,
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos.
Tudo o que faço ou não faço,
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim.

Luís de Macedo

15 de abr de 2011


Queria

Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos.

Ana Paula Inácio

14 de abr de 2011


Da memória que fica delas

Em bando passam aves e eu voando vou com elas
Mas assim que aterro e quebro as asas
Recolho-me à sombra, que não das aves,
Das aves não
Mas da memória que fica delas
Passam lestas chilreando leves
E minh´alma, ninfa triste em seu novelo,
Fica só daqui a vê-lo
O bando não
Mas o que fica de passarem aves.

Arménio Vieira

13 de abr de 2011


Retrato inquebrável

Reencontro-te sempre nos destroços de mim! Sorris-me e dizes-me ao ouvido: Até breve! Depois soltas uma gargalhada profunda e contagiante e sais a correr num vestido branco que esvoaça até se perder de vista... É engraçado... só me lembro de te ouvir "gargalhar" quando ainda éramos crianças e "ninguém estava morto" (por dentro... por fora)

Dizem que quem morre jovem permanece jovem eternamente... Guardo cá dentro o teu retrato... emoldurado no que deixaste em mim!

sophiarui

12 de abr de 2011


Onde
tenho estado
onde estou
Para onde foi a minha vida
A vivida
A que está por viver
Se tivesse sido outra
Seria a mesma outra
Não tenho mais vida
Para além desta
Que me vive.

Glória Gervitz

11 de abr de 2011


Fim

Se pudesses ver-me assim
Como me sinto agora
Triste, cansada, e desajeitada

Sou como um simples rochedo
Que canta melodias antigas
Por entre as fragas soltas
De um altar despido

Encontras-me se quiseres
Sempre na ira dos ventos
Nas incandescentes luzes
Que me deixaram despida
No meio do caminho

Tracei nas mãos
O nosso destino
E vi-te a atravessá-lo
No in-exacto momento
De um único fim

Matilde D' Ônix