"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de mar de 2011


Coração sem lembranças

Coração vazio de amor, frio
de lembranças, chora sua dor!
Não houve chance de sonhar.
Coração marcado, frio, não houve
alguém que o lesse, cofre trancado,
chave perdida, parte sem ter sentido
a calma de um afeto verdadeiro, delírios
de um amor, seus olhos molhados dormem
sem sonho nem recordação, de vida a dois!

Marta Peres

30 de mar de 2011


Se fosse dia Amor e o espinho rebentasse
da terra dos claros olhos da terra

e fosse espinho em silêncio no meio
das palavras e as palavras doessem

no lugar dos dedos onde a lisura da pele
estoura em rocio sob o casco dos cavalos

ah se fosse silêncio entre a carne
e o espírito e a flama cobrisse os lábios

e os nervos atrelassem ao sol as coisas
e elas ardessem na língua do mundo

eu te apertaria Amor contra uma nebulosa
e te extrairia da boca de Deus

quando Ele te soprou para a morte
em meus braços em meus braços cobertos

do musgo de mil outros braços.

Armindo Trevisan

29 de mar de 2011


Te namorei...

Um dia te namorei com inocência,
ruborizando-me a cada sorriso,
mãos trêmulas ao roçar da pele.
Depois te namorei com lirismo,
tatuei teu nome em meu coração,
vi teu sorriso descer da lua
e teus olhos brilhar na escuridão.

A seguir te namorei com paixão,
senti a flama me incendiar o peito
e o sangue se desorientar todo
feito fogo ao sabor do vento.
Também te namorei com carinho
aquele afeto que transpassa o tempo,
tilintam sinos, colore o caminho.

Hoje te namoro assim:
no vento que um dia nos banhou na rede,
na ausência que transformo em poesia
e na saudade que, às vezes, me surpreende
como uma imensa onda.

Basilina Pereira

28 de mar de 2011


Crepúsculo

Há pelo espaço um ciciar dolente
De prece, em torno da Igrejinha em ruína...

O Ângelus soa. Vagarosamente
A noite desce, plácida e divina.
Ouço gemer meu coração doente
Chorando a tarde, a noiva peregrina.

Há pelo espaço um ciciar dolente
De prece em torno da Igrejinha em ruína...
Pássaros voam compassadamente;
Treme no galho a rosa purpurina...

E eu sinto que a tristeza vem suspensa
Sobre as asas da noite erma e sombria...
E que nessa hora de saudade imensa,

Rindo e chorando desce ao coração:
Toda a doçura da melancolia,
Todo o conforto da recordação.

Auta de Souza

27 de mar de 2011


Partiste

Partiste e eu fiquei só,
neste tempo que se perde,
na agonia de um sonho verde,
neste fado que lamento,
que canto e tenho na voz
amarga do pensamento.

João M. Jacinto

26 de mar de 2011


O sol está no meio do trajeto:
- esparge raios lúcidos e quentes
que vão arder nas várzeas adjacentes
onde o silêncio é ser e a sombra é teto.

O sol aos poucos deixa tudo quieto
e vai tombar nas áreas silentes
em meio aos cânticos das almas crentes,
em meio aos cânticos de amor e afeto.

E nós, amada, vamos sempre andando
sem perdermos a força da partida,
sem perdermos o amor que vai passando.

O sol não morre nunca em nossa vida:
- em nossa frente vai iluminando
o resto da existência tão querida.

Artemio Zanon

25 de mar de 2011


[...]
E não havia um nome para a tua ausência!
Mas tu vieste!
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?

Dos bosques do Outono?
Tu vieste. E acordas todas as horas,
preenches todos os minutos,
acendes todas as fogueiras,
escreves todas as palavras.

Um canto de alegria desprende-se
dos meus dedos quando toco o teu
corpo e habito em ti e a noite não existe,
porque as nossas bocas acendem,
na madrugada, uma aurora de beijos.
[...]

Joaquim Pessoa

24 de mar de 2011


Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as idéias em jaulas.)

Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
- Pois não! Ora essa! Tem razão.

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as idéias,
como pássaros mudos.

Fernanda de Castro

23 de mar de 2011


Aquela imagem era só memória, e memória só.
Um mero registro de um instante, que agora apenas compõe uma estante, junto de uma história acabada num livro de capa dourada. Para que voltar a ver desaparecer? Para que a fotografia, se não existe mais esse dia? Se o que é natural é simplesmente acabar no areal, como a onda do mar, e lá ficar.

José Esteves Pereira

22 de mar de 2011


Perdi-me da alegria. Creio que a deixei esquecida num lugar longe, onde o tempo vive numa sala escura, sem portas, nem janelas. Um dia, sei que tenho de voltar atrás para resgatá-la. Nesse dia, a primavera entrará finalmente na porta do meu jardim e juntas - eu, a primavera e a alegria, partiremos finalmente rumo às cores do arco-íris.

Nadir Zernite

21 de mar de 2011


Se não te ouço...
e se não ouço teu canto
o musgo das pedras fica mais liso,
escorrego, caio entre as flores, mas
não sinto seus perfumes,

elas falam, mas não as ouço porque estou distante,
em alto mar, procurando, procurando, procurando...

... e quando escurece, retorno ao jardim
na esperança de te encontrar,
e se não estás, fico comovida,
choro de soluçar,

os lírios acorrem a mim,
falam de ti,
contam tuas histórias, cantam tua música,
espalham teu perfume...

e me embriagam,
então durmo,
até outro dia nascer

e os pássaros começarem de novo
a cantar...

Carmen Regina Dias

20 de mar de 2011


Pior

Não é apenas só
que estou me sentindo...

É muito pior:
- estou me sentindo sem voce.

JG de Araújo Jorge

13 de mar de 2011


Revés

Perdoem-me o desencanto
e o desacato de não vos dizer
o óbvio e implícito:
estou trocando de pele,
estou trocando de face,
estou tentando trocar de vida,
estou em mutação,
em processo contínuo de transformação
e grito sem gritar,
assopro minhas dores,
regurgito meus temores,
por mim,
por egoísmo.
E por isso o meu silêncio,
estava digerindo os meus anseios,
devorando os devaneios,
ansiando,
aspirando,
suspirando,
as minhas quimeras,
uma ex-lagarta,
um casulo vazio...
Mas ainda não tenho asas,
ainda não sei voar
e me devoro...

Karla Dias

6 de mar de 2011


... foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada.

Éramos velhos, eu contava morrer antes dela. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará.

Machado de Assis

5 de mar de 2011


Narciso e a xícara de chá

Olhava para a xícara de chá em minhas mãos
sentia um delicado odor
assim
de folha

quando parei
e cheguei a me assustar
com a face que ali estava
a me olhar

na figura refletida
dos contornos de meu rosto
algo tomara o lugar

como se minha face
meio Narciso às avessas
só se visse
com teu rosto
em seu
lugar

Eliana Mora

4 de mar de 2011


A uma bailarina

Fecho os olhos e a vejo ondulante
Como um salgueiro ao vento, fina e leve,
Lá se vai! Deixa apenas, flutuante,
A lembrança de um véu de “tule” e neve…

Demorou-se tão pouco! Um curto instante!
Um curto instante, tão fugaz, tão breve!
Quem sabe, além, num palco mais distante,
Outro poema de ritmos descreve?

Mas fica eternamente nos meus sonhos;
Vejo-a de olhos brilhantes e risonhos
Que nas asas do vento a cena corta. –

Impalpável… Comparo-a a luz e à espuma,
E a julgo, vendo-a leve como pluma,
A alma, talvez, de uma falena morta!

Maria Thereza de Andrade Cunha

3 de mar de 2011


O homem e sua sombra

- Que sombra estranha me deram!
(o homem conjeturava
pois sua sombra
não andava).

Estática
ficava ancorada
onde bem lhe apetecia.

O homem a chamava
ela não se mexia.

Desguarnecido de sua sombra
seu dono já não sabia
se a ia ou se ficava.

Não ia
a parte alguma.
Ao redor da própria sombra
circulava.

Affonso Romano de Sant´Anna

2 de mar de 2011


A máscara

Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam de prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida

E entre a mágoa que másc'ra eterna apouca
A Humanidade
ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.

Augusto dos Anjos

1 de mar de 2011


Realejo

Minha vida bela,
minha vida bela,
nada mais adianta
se não há janela
para a voz que canta...

Preparei um verso
com a melhor medida:
rosto do universo,
boca da minha vida.

Ah! Mas nada adianta,
olhos de luar,
quando se planta
hera no mar,

nem quando se inventa
um colar sem fio,
ou se experimenta
abraçar um rio...

Alucinação
da cabeça tonta!

Tudo se desmonta
em cores e vento
e velocidade.
Tudo: coração,
olhos de luar,
noites de saudade.

Aprendi comigo.
Por isto, te digo,
minha vida bela,
nada mais adianta,
se não há janela,
para a voz que canta...

Cecília Meireles