"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de ago de 2011



Sótão

Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão

30 de ago de 2011



O lento trabalho das aranhas

(...)

Aqui nesta cripta está o relento,
branco e mole, criado
na escuridão e no silêncio. Branco e sem olhos.
Branco e mole, onde
se ouve o lento trabalho
das aranhas no fundo.
- Sentiste
o teu pensamento avançar
mais um passo
no silêncio?
Sentiste-o avançar no silêncio?
Dentro de cada ser ressurgem os mortos.
A noite com outras noites em cima.
Há como um assassinato de que
se não ouvem
os gritos.
O negro sol.
Lepra.
As canduras.

Só a água fala nos buracos.

(...)

Herberto Helder

29 de ago de 2011


Não encontro o retrato

Não, não encontro o retrato.
Estavas de perfil, a luz de cinza
caía-te dos braços,
da casa próxima o fumo

subia devagar os últimos degraus
do outono, um cachorro
saltava no terreiro, não tardaria
a escurecer.

Estavas de perfil, a mão acompanhando
no regaço a rosa que te dei.
Deixa-a ficar e ser,
a mão, rosa também.

Eugénio de Andrade

28 de ago de 2011


Lembro

Lembro-me de ser sereia de olhos líquidos,
olhos aquário com peixes nadando devagar.
Lembro o canto suave
[ chamando o luar grávido de agosto ]
e de dançar na praia das tuas mãos macias.
Lembro o toque, o deslizar das mãos
no corpo vestido de algas e delícias.
Lembro as primícias de mil e uma noites
de astros acesos a transbordar de apelos.
No vagar dos sonhos serei sereia indefinidamente.

Maripa

22 de ago de 2011


Receio que ele me quis dar uma
noite igual à que eu lhe dei; mas,
se foi por isso que o fez, soube
vingar-se mal, pois esta noite foi
apenas a terça parte da sua; além
disso, o frio era de outra
natureza.

Giovanni Boccaccio

21 de ago de 2011


Requiescat

De meu mar, ofereço-te as ondas
e as poéticas conchas
que minhas praias te trazem
Tais suaves mistérios te concedo,
mais as algas, e as gaivotas
que bicam tecidos de luz na tarde.

Povoados de ti, de mim,
os barcos que chegam e ardem.

Adere-te, pois, ao sal que e mim te chama,
molha teus pés em espuma e encanto,
cobre teu rosto
nas claras águas que o dia me abre.

(Sosseguem, minhas dorsais;
Descanse meu leviatã escuso.)

Fernando Campanella

20 de ago de 2011


Desci um milhão de escadas

Desci, dando-te o braço, ao menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás é o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve nossa longa viagem.
A minha dura ainda, mas já não me ocorre pensar
nas conexões, nas reservas,
nas ciladas, nos vexames dos que crêem
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja melhor.
Contigo as desci porque sabia que de nós dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que tão ofuscadas,
eram as tuas.

Eugenio Montale

16 de ago de 2011


Nomeio-te...
cristais de luz
adágio melancólico
neste estar sem te ter
sonata inacabada
a desmaiar na tarde
a preencher ausências
a ganhar distância.

Penduro o teu olhar
na sombra da magnólia
que floriu no meu ventre.

Maria Aurora Carvalho Homem

15 de ago de 2011


O guarda-chuva

Nas manhãs de inverno
o homem transpunha a porta
e, sob a asa negra do guarda-chuva,
transportava a solidão.

No comboio,
ela entrava de roldão
e em cada rosto se estampava;
no trabalho,
por onde passeasse a sua vida morta,
a solidão medrava.

À noite, apenas regressado,
fechava a asa,
e deixava de novo a solidão
à solta,
pela casa.

Manuel Filipe

14 de ago de 2011


24 horas

Enrolo o dia sobre mim.
Para lá do casulo soam trombetas
de maus augúrios
sopram os ventos fumegantes
que trazem sangue no dorso
e a tempestade cavalga o horizonte.

Alice Daniel

11 de ago de 2011


Vespertino

A tarde cai num silêncio de cansaços
do sul as nuvens chegam
como flâmulas
e sobre nós respiram
leves as folhas
de sobreiros e acácias
que perduram

sobre o muro
esquecido
aberto o livro:

«não conheci o desvario do amor senão quando me esforcei
de todas as maneiras por curar-me dele»

eu amava estes lugares onde as sílabas fulgem a floração do corpo

mas as palavras já não têm tal rosto

na tarde que finda
compõem ainda uma gramática –
a do silêncio

Soledade Santos

9 de ago de 2011


Décimo Andar

Há os que optam por fechar os mortos
à chave
nos sotãos ou na cave
da memória
Por mim prefiro deixar os meus à solta
a povoar o meu dia e o jardim suspenso
do meu décimo andar
como pássaro poisando
como músicas indo e vindo
no vento.

Teresa Rita Pinto

8 de ago de 2011


Alvorada

Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.

Rita Apoena

7 de ago de 2011


Maiwu

o pretérito circula
na espiral de labirintos
no tempo sem fim

na dor que hoje vaza
na rigidez dos erros
na penumbra da casa

mas no caracol esperança
o sorriso cintila
ao renascimento do amanhã

Michèle Sato

6 de ago de 2011


Testamento

Eu,
Lucille Clifton,
por este meio atesto
que naquele quarto
havia uma luz
e nessa luz
havia uma voz
e nessa voz
havia um suspiro
e nesse suspiro
havia um mundo.

Um mundo um suspiro uma voz uma luz e
eu
sozinha
num quarto.

Lucille Clifton

5 de ago de 2011


Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal

4 de ago de 2011


Tu

Quando não estás,
são íngremes os muros dos dias
e o frio é fundo…

Tu: palavra de ordem
Santo-e-Senha
Manifesto
de mim.

Teresa Sá Couto

3 de ago de 2011


Escrevo-me.
Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto.
E o que sinto é o que existo e o que sou.
Escrevo-me nas palavras mais ridículas:
amor, esperança, estrelas,
e nas palavras mais belas:
claridade, pureza, céu.
Transformo-me todo em palavras.

José Luis Peixoto

2 de ago de 2011


Pouco esperar

Guardas tudo de mim –
não sei se entendes
a ternura da dádiva –
também não te pergunto…
Para quê?
O meu amor é isto:
desejar-te em segredo
pouco esperar do que vier de ti
E nada te pedir.

Maria Aurora Carvalho Homem