"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30 de set de 2011




Casa

Procuro minha casa
morando em todas as casas do mundo.
Contemplo o mar de todas as janelas
e a vida dos armários
em busca de segredos escondidos.

Passeio nas varandas
nas paisagens
com os olhos curiosos de um herdeiro.

Existe em cada casa um ser incerto
que já se foi e ficou
rondando as sombras
durando paralelo
como um perfume
um voo
fotografado e preso na gaveta.

E numa tarde
à luz de uma vidraça contra o vento
se alguém disser – lembra dele?
o ausente convocado será
por um momento
pleno como um coração que bate forte.

Adelaide Amorim

25 de set de 2011




Encontro

Visito esse lugar.
Procuro-te nesse recanto habitual.
Sei que não estarás lá,
mas finjo ignorá-lo,
procuro pensar que saíste,
que saíste há pouco,
numa ausência breve,
como se tivesses saído
para logo regressares.
Quando chegasses, se tu chegasses,
dir-te-ia: Tu lembras-te?
E o verbo acordaria ecos,
nostalgias distantes,
velhos mitos privados.
Sei que não virás,
conjecturo até, por vezes,
teus distantes, inúteis
diálogos numa praça gris
que imagino em tarde de invernia.
Então disfarço, ponho-me
a inventar, por exemplo,
uma longilínea praia deserta,
uma fina, fria, nebulosa
praia
muito silenciosa e deserta.
Pensando nela fito de novo
este lugar e digo para mim
que apenas partiste
por um breve instante.
E sigo. E de novo protelo
este encontro impossível.

Rui Knopfli

13 de set de 2011




De perguntas e desafinos

que acorde é esse
que sintonia é essa
que te deixa adormecida
tão fora do tom
não mantendo a forma do acordo
feito com a outra face no espelho?

que face é essa
que esconde o choro
do samba rasgado
e te derrama em jazz
ou em valsa solo?

(com quantos bemóis
se faz o limite do desafino?)

Beth Almeida

11 de set de 2011




Duas

Somos duas
Não gêmeas, ambas fêmeas,
Somos duas.
Uma destra, outra sinistra,
Uma levada, outra anarquista.
Uma sofisticada, outra caseira,
Uma bem amada, outra presepeira.

Somos duas.
Uma que ama, outra que reclama.
Uma que vence, outra que convence.
Uma que estuda, outra arquiteta.
Uma selvagem, outra irrequieta.

Somos duas.
Uma te quer, outra te repele
Uma é mulher, outra mademoiselle.
Uma sente muito, outra é prisioneira.
Uma guarda tudo, outra é fuxiqueira.

Somos duas.
Uma livre, libertina.
Outra simples, na cozinha.
Uma ardente, sensual.
Outra silente, casual.

Somos duas
Somos opostas
Somos compostas
Somos dispostas
A ser uma só.

Lílian Maial

10 de set de 2011



Janela sobre uma mulher

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa
casa serei habitado. Nela me espera o vinho que me
beberá. Muito suavemente bato na porta, e espero.

Eduardo Galeano

8 de set de 2011



Mãos astutas de princesa

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

António Franco Alexandre

4 de set de 2011



Eu fui uma mulher marítima,
as rugas chegaram antes.

Eu fui uma mulher marítima,
paisagem e pêssego,
uma faísca
entre a corda do barco
e a rocha.

Eu fui o que não sou.
Depois que inventaram o inconsciente,
a verdade fica sempre para depois.

Fabrício Carpinejar