"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de dez de 2012


Salmo pela distribuição

Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na Terra.

Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição.

  Jack Agüeros

30 de dez de 2012


Há uma orquídea sobre o dorso claro da mulher. Verdes e vermelhos, os pigmentos se misturam à pele e exalam o perfume tatuado. Ao toque, a flor se abre e as costas -- imenso jardim -- se curvam e se revoltam, um tumulto de espasmos que distendem vértebras e músculos. 
Há uma orquídea sobre o dorso claro da mulher. A flor plantada no lado direito do corpo, carregando o prenúncio da estação. Carne e flor fundidas no mesmo festim, carne e flor confundindo-se num mesmo sabor. 
Há uma orquídea sobre o dorso claro da mulher. Seu desenho gravado para sempre.

 Marcello Rollemberg

29 de dez de 2012


Procurei-te

Hoje procurei-te no sol que brilha lá fora.
Tentei encontrar o teu rosto no mar, na areia da praia, 
até nas rochas que as vagas acariciam. 
Quis ouvir o teu riso na música que sempre me acompanha.
Olhei as crianças no jardim e pensei ver-te sentado naquele banco. 
Quis e esperei que a brisa me trouxesse o teu cheiro.
Hoje procurei-te em todos os sítios errados.
Tentei ver-te em todos os locais onde não estás.
Mas acabei por encontrar-te.
Em mim... Como sempre

 Alice Daniel

28 de dez de 2012


Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
... meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos

27 de dez de 2012


... foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada.

 Éramos velhos, eu contava morrer antes dela. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará. 

Machado de Assis

26 de dez de 2012


Estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. estou sozinho.
estou sozinho e nunca aprendi a estar sozinho. estou sozinho.
sinto falta de palavras. estou sozinho. estou sozinho.
sinto falta de uns olhos onde possa imaginar. estou sozinho.
sinto falta de mim em mim. estou sozinho. estou sozinho.
estou sozinho.

José Luís Peixoto

25 de dez de 2012


Eu quero ser Dezembro

Quem fala do amor? Eu tenho frio
e quero ser Dezembro

Quero chegar a um bosque apenas sensível,
até à maquinaria do coração sem saldo.
Eu quero ser Dezembro

Dormir,
na noite sem vida,
na vida sem sonhos,
nos tranquilizados sonhos que desaguam,
no rio do esquecimento.

Há cidades que são fotografias
nocturnas de cidades.
Eu quero ser Dezembro.

Para viver ao norte de um amor que aconteceu
debaixo do beijo sem lábios de já há muito tempo,
eu quero ser Dezembro.

Como o cadáver branco dos rios,
como os minerais do Inverno.
Eu quero ser Dezembro

 Luis García Montero

24 de dez de 2012


Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos

Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.

 Charlotte Delbo
(trad. Luís Filipe Parrado)

23 de dez de 2012


A sombra sou eu

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

 Almada Negreiros

22 de dez de 2012


O jogo do mundo 

 O jogo da macaca joga-se com uma pedra que tem de se empurrar com a biqueira do sapato. Ingredientes: um passeio, uma pedra, um sapato e um belo desenho feito com giz, de preferência colorido. O Céu está lá ao fundo e a Terra aqui em baixo, é muito difícil acertar com a pedra no Céu, calcula-se quase sempre mal e a pedra sai do desenho. Pouco a pouco, no entanto, vai-se adquirindo a habilidade necessária para acertar em todas as casas (a macaca em caracol, rectangular, de fantasia, pouco utilizada), e um dia aprende-se a sair da Terra e a levar a pedra até ao Céu, até chegar ao Céu (…); o problema é que é precisamente nessa altura, quando quase ninguém aprendeu ainda a levar a pedra até ao Céu, que a infância se acaba e de repente se cai nos romances, na angústia inútil, na especulação de outro Céu ao qual também é preciso aprender a chegar. E como já se saiu da infância (…) esquece-se que para chegar ao Céu são necessários uma pedra e a biqueira do sapato, como utensílios básicos. 

  Julio Cortazar

21 de dez de 2012


Regresso

Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.

Graça Pires

20 de dez de 2012


Memórias de Dulcinéia XX

Ao longo dos anos conservei
uma inesperada tristeza reflectida
em meus olhos cor da sede.
Pedra a pedra, casa a casa,
sombra a sombra vagueio
pelas sensações e aguardo
que se repitam os sonhos
que resistiram à violência do tempo.
Podia escrever com sangue
o instante, sem amparo,
onde reclinei a cabeça
para aguardar a morte
dos desejos.

Graça Pires

19 de dez de 2012


Vozes

Tempo e espaço
não me limitam.
A procura
me avizinha ao mundo.

A moça espera
quem nunca partiu,
depois abraça
o que nunca chegou.

Minha palavra
é explosão de argila.

Prisca Agustoni

18 de dez de 2012


A água

Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.

 Paulo Bomfim

17 de dez de 2012


Os meus olhos
olham os meus olhos,
para lá da janela
há sombras
suspiros
árvores e rosas.
Dentro da janela,
Só os meus olhos
Olhando outros olhos encobertos.

O silêncio pesa.

  Isabel Meyrelles

16 de dez de 2012


Meu corpo é assim,
como um vestido antigo,
com duzentos botões...
que você deve desabotoar,
devagar...
com calma...
com carinho...
para não amassar a seda,
nem machucar as dobras...

 Maria Teresa Albani

15 de dez de 2012


Lição das flores

aprendi com as flores
o que Narciso
não aprendeu com o lago

a beleza é tão efêmera
quanto frágil
tão superficial
quanto volátil
tão banal
quanto conceitual
tão sedutora
quanto dissimulada

sim...
foram as flores
que me ensinaram
a crueldade 
do tempo
e do vento 

 Paulo Ednilson

14 de dez de 2012


Derrubei todas as minhas paredes 
pra dar lugar a mais janelas.
Quero que meus olhos alcancem além do que há aqui.

É muita luz pra pouco cômodo.
E eu sofro com o (in)comodo 
Desse espaço que faz falta em mim!

 Fernanda Gaona

13 de dez de 2012


As Rosas de Saadie 

Esta manhã eu quis levar-te rosas,
Mas tantas eu tinha na cintura presas
Que os nós cerrados não as puderam conter.
Os nós rebentaram. E elas levadas
Pelo vento no mar foram tragadas.
As rosas perdidas eu não consegui rever;
As águas ficaram vermelhas, como inflamadas.
Esta noite minhas vestes ainda estão perfumadas.
Aspira em mim a lembrança de as trazer.

 Marceline Desbordes-Valmore

12 de dez de 2012


Os primeiros momentos

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados

Coral Rumble

11 de dez de 2012


Pra recomeçar

Quando não sinto os pés no chão
Abro minhas asas pra voar
Quando elas estão curtas
Ponho a ir...
Vagar no imaginar
Mesmo em terras
Em campos improváveis
Há...
Uma fresta
Um horizonte de possibilidades
Escolhas... Pra recomeçar

Leslie Holanda

10 de dez de 2012


Subo a escada devagar para sentir nos cascos a quentura da pedra. Uma borboleta pousou no corrimão bem ao meu alcance. Prendi-a pelas asas, mas tremeu tanto que soltei-a. Saiu voando buleversada como se tivesse ficado cem anos presa. Nos meus dedos, o pó prateado. Tão breve tudo. Prendi assim a alegria, ainda há pouco foi minha, mas se debateu tanto que abri os dedos antes que a ferisse, não se pode forçar. Um pouco mais que se aperte e não fica só o pó, mas a alma. 

Lygia Fagundes Telles

9 de dez de 2012


não sei o que têm os pássaros quando em bandos voam mundo fora. vão libertar paisagens - noutro lugar também hei-de ser pássaro e as minhas asas rasgarão a pele de claridade e sol - vou. talvez não regresse. que os dias são bons em viagem. porque o corpo só não sente - um dia tudo há-de voltar a estar no lugar correcto e os pássaros voltarão a casa - por agora basta-me saber que em algum lugar alguém me espera.

  Margarete

8 de dez de 2012


PIO. 

Quando estou lá fora
Alguém se importa?
Alguém me abraça?
Todos pensam
Naquilo que pensam
Que sou.
Quando estou longe
Alguém me toca?
Alguém me gosta?
Só pensam
Naquilo que pensam
Que me tornei.
Quando volto pra dentro
De mim
Sinto falta de mim
Alguém se importa?
Alguém me toca?
Mãe?... 

Dário Banas

7 de dez de 2012


Preciso de silêncio interior
Sem nada me separando de
mim mesma.

Não quero ouvir ou falar.
Quero estar só com os
meus pensamentos,
no vazio da noite escura.

Quero deixar rolar
lágrimas sufocadas.
Quero sentir a dor
rasgando o peito,
implorando por alívio...

Sandra Ribeiro

6 de dez de 2012


O menos possível 

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães

 Ernesto Sampaio

5 de dez de 2012


será esse o teu inverno 

 nada te levará tão longe, como os dias cegos de outrora. janelas que se perdiam na bruma, olhos que pousavam no impossível do tempo, movimento perpétuo dos lábios com marés de palavras esculpidas no coração. 

 foi tudo nesse horizonte afogado. a mesa vazia, o piano calado, o pássaro imóvel. virás por muitos anos, como a espuma dos sonhos perdidos. e a raiva será cantada no paredão da memória até ficarem macias as pedras do caminho. será esse o teu inverno. 

  gil t. sousa

4 de dez de 2012


Soneto da ausente

É impossível que, na furtiva claridade,
que te visita sem estrela nem lua
não percebas o reflexo da lâmpada
com que te procuro pelas ruas da noite.

É impossível que, quando choras, não vejas
que uma das tuas lágrimas é minha.
É impossível que com o teu corpo de água jovem,
não adivinhes toda a minha sede.

É impossível não sintas que a rosa
desfolhada a teus pés, ainda há um minuto,
foi jogada por mim com a mão do vento.

É impossível não saibas que o pássaro,
caído em teu quarto por um vão da janela,
era um recado do meu pensamento.

 Cassiano Ricardo

3 de dez de 2012


... Lhe perguntei se acaso sentia saudades dela. Não puder notar em seus olhos qualquer sinal que viesse a denunciar tal sentimento, do qual eu esperava. Ela sempre lhe dera muito carinho, eu réu confesso de um crime culposo, (que difere por agressões verbais), escondi no meu olhar toda culpa que recaia sobre mim. Que me faz cair por terra até que algum dia disso seja feita minha última morada. 

  Pedro Miller

2 de dez de 2012


Pequena morte

Foi uma pequena morte
a tua partida.
Uma morte pequena que me cresce
quando imagino
por vezes que estás perto
e me obstino em dar voltas
pelas ruas
e regresso a casa
com a chuva
caindo e me assalta a tua voz
na noite
sem horas.

Claribel Alegria

1 de dez de 2012


Nome

Não eram lírios os lírios
caídos na areia, caídos
na areia roxa da noite
quase noite.
Não eram lírios, não eram
como tua sombra, eu sei,
mas eram muito mais lírios
que os lírios. Por isso
de lírios os chamarei.

Olga Savary

30 de nov de 2012


não acredito no futuro. há muito que deixei de lutar por ele. luto pelo presente. porque os dias mais belos são esses onde construímos casa e existimos para sempre - o presente é nosso. o futuro não acontece. existe para termos esperança. e a esperança é o consolo dos frágeis - sou frágil. por dentro da pele nenhum presente se vive porque o coração não renuncia à esperança - gostava de inventar dias mais felizes - às vezes. fico neste estado amorfo. e a vida passa por mim e eu sem gesto. nem palavra. nem silêncio - às vezes não existo. estou sem esperança. vou para longe -

mar

29 de nov de 2012


Regresso

Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço

Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais

Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende

 Alberto de Lacerda

28 de nov de 2012


Suite número seis

É um grande incómodo não saber tocar
violoncelo que o pranto seria doutra
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado – a dor
em arco – ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda – se nunca lhe achei
o préstimo – que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.

 António Gregório

27 de nov de 2012


Passeio

Hoje visitei a beira do abismo
Eu e meu jeans

No fundo, sempre achamos que o tempo não iria passar

Acocorei-me sobre o limbo que cobria o chão que pisava
Abotoei uma borboleta amarela na lapela
Cobri-me daquele sol desbotado e velho
Apanhei um cogumelo solitário que insistia em crescer na pedra
Cheirei duas nuvens passageiras
Mas resolvi não olhar para o espelho do mar

E o azul acima da minha cabeça sempre me desafiando

Resolvi seguir pra lá

Estou cansado de tentarem me convencer que envelheço

Celso Mendes

26 de nov de 2012


O meu corpo

o meu corpo
como se fosse o cálice
o meu sangue como se fosse o vinho
estas as palavras da vida eterna
até que dure
o sopro que as insufla
do pó em que se desfazem
esse pó que enegrece o cálice
o cálice donde escorre o vinho.

 Ana Paula Inácio

25 de nov de 2012


Não pensava em ti,
Não fui atrás de ti,
Não te esperei.
Ao encontrar-te
repentinamente
penso em ti
estou em ti
tu pensas em mim
tu estás em mim.
Somos UNO!
Nos pertencemos
e pertencemos ao Mundo!
Na mesma Luz Azul que 
nos envolve e UNE!

 DebbyeBlue

24 de nov de 2012


Anti-elegia 

a dor 
sobrepõe-se ao silêncio
quase religioso
do azul sem nuvens 
que 
opressivo 
derrama-se 
sobre o vidro da janela

corrói e corrompe
conspurca a beleza do instante

numa concretude impalpável
indizivelmente real

 Márcia Maia

23 de nov de 2012


Estrangeiro

navego
por entre areia e fumaça
a deslizar as lágrimas
e o fogo
dos não olhares.

as águas nas fatigadas asas
buscam teu porto;

comigo
o peso de mágoas,
alguns cacos,
poucos sonhos
e a mudez das pedras pensantes.

palavras
apenas
pegadas
(rastro
de pó
em oceano)

a ti,
que me esperas
e me desconheces,
ofertar-te-ei
o meu mais belo silêncio
e este vazio onde descanso
para partilharmos
sós.

Celso Mendes

22 de nov de 2012


Então para os outros sou aquele estranho que surpreendi no espelho: sou ele e não eu, tal como me conheço! Sou aquele estranho que, à primeira vista, não reconheci. Aquele estranho que não posso ver viver a não ser assim, num instante inesperado. Um estranho que só os outros podem ver e conhecer. 

  Luigi Pirandello

21 de nov de 2012


Tratam-me como se fosse uma daquelas bonecas baratas, que se recebem de duas em duas semanas quando a nossa tia favorita nos vem visitar. Aquelas em que pegamos, achamos graça e brincamos com elas, até nos fartarmos e querermos outra. Aquelas que, depois de perderem a graça, não passam de mais uma na nossa enorme colecção de figuras imóveis. Não percebem o sofrimento dos que são condenados a ser bonecas sem o quererem. Porque mesmo eu, boneca que sou agora, tenho sentimentos [ou pelo menos o que resta deles]

 E bonecas também choram, nem que sejam lágrimas de plástico... 

  Inês

20 de nov de 2012


Eu só de luz me sustento
de corpos, rostos irradiantes.
Chega de coisas baças.
Mas adiante.

Apenas quero das horas
o instante
a cada instante.

Helga Moreira

19 de nov de 2012


Regras do esquecimento

Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
... e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras.

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.

 Vasco Gato

18 de nov de 2012


A minha memória não é uma fonte de sofrimento. 
Certas partes são como uma loja de penhores, outras como um aquário, outras como uma despensa. Julgo que há um sítio onde a memória se distorce como as imagens nos espelhos de feira e é essa a área que mais me interessa.

  Tom Waits

17 de nov de 2012


Como se fosse a minha vida

De noite não escrevo cartas,
qualquer que seja a luz, para onde quer que seja.
E já não me assusta o elevador
vertiginoso, desde que o sono
me habituou à queda.

Na luz do fim da tarde agora brilha
para sempre a minha varanda amarela.
Campos salgados, colinas esburacadas,
já não me assustais.

Como se fosse a minha vida,
fecho as janelas, vou comendo
pão, poupo energia.

 Hans-Ulrich Treichel

16 de nov de 2012


As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

 Pedro Mexia

15 de nov de 2012


Oásis

Sou um piano 
esquecido na garganta do mar
entre as ondas aqueço uma canção anoitecida

o tempo dedilhando notas geladas
atravessa meu corpo com a música da morte.

Amadureço uma canção no ouvido dos búzios.
A canção das praias alargando o coração,
palpitando no vazio.
A luz entardece as lágrimas da aurora.

Galopa um cavalo em meu coração
sua crina acende a liberdade em meus olhos de cinza
corcel das ondas batendo contra o tempo
ecos do infinito batendo no peito sedimentado à terra.

O meu nome é uma canção pronunciada do outro lado
um corpo com uma ferida coberta de sal
ardendo o sol em suas veias escuras.
Tenho apenas grãos de areia para cobrir o frio.

Uma lótus cresceu em minha língua coberta de fogo
as mãos buscam arrancá-la
desce pelos vocábulos adormecidos e os acordam.

Acendo as estrelas apagadas nos olhos da vida
depois regresso
o sangue coagulado nas nuvens é meu último poema.

Sou a xícara esquecida na chuva
gotas batem no fundo de rosas fluorescentes 
rachando o nome coberto de areia.

Busco uma lamparina ardendo no corpo da morte.

  Sandrio Cândido

14 de nov de 2012


E depois, oh! depois, sim!
vou para casa e vou pôr-me à janela
para anunciar o primeiro e o último espectáculo
da peça sem autor,
o grande espectáculo das marionetes humanas.

E haverá música
músíca
músíca
música
no violino do tempo.

Quebrarei a ampulheta do tempo!

 Mendes de Carvalho

13 de nov de 2012




Agora que não nos vemos
e as nossas vidas correm pelos dias
cada vez mais longínquas,
sinto, às vezes, uma vontade enorme
de te ver uma tarde, tomar café
contigo, saber como vais…

Agora que não nos vemos
e nos perdemos aos dois,
não penses que esqueci as tuas coisas.
Guardo boas lembranças, poemas
que te escrevi(lembras-te?); guardo
cartas e fotografias…
E um lugar
na minha alma, onde, se quiseres,
sempre, sempre podes estar.

 Abel Feu

12 de nov de 2012


Tão só quanto o lírio... 

Sós 
em 
busca 
permanente 
como 
borboleta 
procura 
sempre 
flor.
Estamos 
cada 
dia 
assim: 
Como 
lírio, 
que 
só 
nasce 
só 
acaricia 
terra.

 Grácia Passos