"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de jul de 2012

Caos

Há um momento na vida
de terror definitivo,
de fracasso tremendo,
de sangrar a ferida.
Nada rende,
não há remendo,
nem consolo,
nem saída;
luta perdida.
A lágrima não significa,
o amor cruza os braços,
a saudade diz que vai,
e fica.

Ivone Boechat

30 de jul de 2012


Um despertar sem sonhos

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir

É quando, ao despertar,
revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias

Carlos Drummond de Andrade

29 de jul de 2012



Amputação

Algo, em mim, está morto.
O lado direito inerte, ausente,
de mim está alheio.
Do lado esquerdo
o fito,
como se a um outro
olhasse.
Metade de mim persiste,
vive,
e contempla algo, ardendo,
estiolando,
que em mim está morto.
Um perfil que apodrece
e eu vivendo
e vendo ausentar-se de mim
algo que em mim está morto
definitivamente.

Rui Knopfli

28 de jul de 2012


Menina-Pássaro

Queria inteira ser
um desenho seu
porque meus olhos
já queimam
em sua profusão de cores
que sopram cinzas
ciscos do horizonte

ser um contorno, uma ave
qualquer objeto, ser
que se estende em seus lápis

algo que eu possa sonhar
rascunhado em seu papel
sem temer o amanhã
em branco.

Lara Amaral

27 de jul de 2012



Memórias de um chapéu

Quisera então saber toda a verdade
De um chapéu na rua encontrado
Trazendo a esse dia uma saudade
D´algum segredo antigo e apagado
Sentado junto à porta desse encontro
Ficando sem saber a quem falar
Parado sem saber qual era o ponto
Em que devia então eu começar

Parada na varanda estava ela a meditar
Quem sabe se na chuva, no sol, no vento ou mar
E eu ali parado perdi-me a delirar
Se aquela beleza era meu segredo a desvendar
Porém apagou-se a incerteza
Eram traços de beleza os seus olhos a brilhar
E vendo que outro olhar em frente havia
Só não via quem não queria da paixão ouvir falar

Um dia entre a memória e o esquecimento
Colhi aquele chapéu envelhecido
Soltei o pó antigo entregue ao vento
Lembrando aquele sorriso prometido
As abas tinham vincos mal traçados
Marcados pelas penas ressequidas
As curvas eram restos enfeitados
De um corte de paixões então vividas

Aldina Duarte

26 de jul de 2012




Memórias de Dulcineia XX

Ao longo dos anos conservei
uma inesperada tristeza reflectida
em meus olhos cor da sede.
Pedra a pedra, casa a casa,
sombra a sombra vagueio
pelas sensações e aguardo
que se repitam os sonhos
que resistiram à violência do tempo.
Podia escrever com sangue
o instante, sem amparo,
onde reclinei a cabeça
para aguardar a morte
dos desejos.

Graça Pires

25 de jul de 2012



Vazio

Vazios os lugares
e as mãos abertas
a tactear os rostos
como paredes nuas.
Pálidas as vozes
e nos ouvidos
só apelos de mar
na vaza da maré.
Quando por fim a tarde
aceita a rendição
as mulheres amam
os lugares vazios
e deitam-nos no colo
e embalam-nos
com as vozes sobrantes
do cansaço.
Mesmo os lugares vazios
sonham com a enchente
na cava desse abraço.

Licínia Quitério

24 de jul de 2012



A Falsa Unidade

Nenhum eu, nem mesmo o mais ingénuo, é uma unidade, antes sim um mundo extremamente multifacetado, um pequeno céu estrelado, um caos de formas, estádios e condições, heranças e possibilidades. O facto de cada um por si aspirar a considerar este caos uma unidade, e falar do seu eu como se se tratasse de uma manifestação simples, fixa e solidamente modelada, claramente delimitada - esse engano, que é inerente a qualquer ser humano (mesmo superior), parece ser uma necessidade, uma exigência da vida, como a respiração ou a alimentação.
O erro assenta numa simples transferência. De corpo, todo o homem é uno; de alma, nunca.

Hermann Hesse

23 de jul de 2012



De cara lavada

hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

Martha Medeiros

22 de jul de 2012




Fiat Lux

hoje um sol me visitou à noite
e era ao mesmo tempo
tão distante e tão presente
tão luz e tão quente
que adormeci entre seus raios
e acordei com jeito de lua nova
outra vez

Isabella Benicio

21 de jul de 2012



olhar o mesmo olho
com outros olhos

em outro olhar
o mesmo olho

nos mesmos olhos
o olhar do outro
de olho

Alice Ruiz

20 de jul de 2012



Ossos e sangue

Para que servem
os sonhos que sempre tive,
se o tempo passou
e me petrificou?

Onde posso
encontrar carne e ossos,
se tudo agora
são pedras?

Como verter
das veias, sangue,
e revelar o pulsar do coração
se pertenço ao mundo mineral?

Como amar
se minhas perdas
fizeram de meus sentimentos
uma rua ladrilhada?

Oswaldo Antônio Begiato

19 de jul de 2012



Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

Ricardo Reis

18 de jul de 2012



Conheço a residência da dor

Conheço a residência da dor.
É um lugar afastado,
Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
Com umas imensas vigílias diante do céu.

A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
Nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.

O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
Mas não é rosto de corpo,
Nem o seu espelho é do mundo.

Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
Em caminhos inesperados.

Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
"Quem visse, como vês, a dor, já não sofria".
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.

Cecília Meireles

17 de jul de 2012



Algumas pessoas vendem o seu sangue. Tu vendes o teu coração.
Era isso ou a alma.
A parte difícil é tirar a maldita coisa para fora.
Uma espécie de torção. Como abrir uma ostra,
a tua espinha, um pulso,
e depois, upa! Está na tua boca.
Viras-te parcialmente do avesso
como uma anémona do mar a cuspir um seixo.
Há um “plop”quebrado, o som
de vísceras de peixe a cair num balde.
E ali está, um enorme coágulo vermelho escuro
do passado ainda-vivo, a cintilar inteiro no prato.
Vai passando de mão em mão. É escorregadio.É deixado cair.
Mas também degustado. Muito grosseiro, diz um. Muito salgado.
Muito amargo, diz outro, fazendo uma cara.
Cada um é um gourmet instantâneo,
e tu ficas a ouvir isto tudo
a um canto, como um empregado de mesa recém-contratado,
a tua mão tímida e habilidosa na ferida escondida
no fundo da camisa e peito,
timidamente, sem coração.

Margaret Atwood

16 de jul de 2012




A gaiola esteve fechada por tanto tempo
que um pássaro nasceu lá dentro.

o pássaro ficou imóvel por tanto tempo
que a gaiola
corroída pelo silêncio,
se abriu.

o silêncio durou tanto
que por trás das barras negras
risos e mais risos ecoaram.

Tadeu Rozewicz

14 de jul de 2012



Um rastro de estrelas

Assisto ao dobrar dos dias
dentro de cada madrugada,

Sinto a neve
sulcada em meus cabelos,
sorvo a chuva mágoa dos meus olhos
onde os lírios e a esperança
se rasgam em rugas cansadas
de gestos e de nadas.

Invento o dia que não chega
na pura ressonância
do esquecimento.

Órfã do teu sorriso
feito de promessas e de horizontes,
me deixo inesperadamente
apaixonar pelo rasto luminoso
das estrelas.

Luiza Caetano

13 de jul de 2012



Só, silêncio e solidão, sempre

Só,
só,
só,
só, sempre,
solidão, sempre, só,
só,
só,
só,
tão só, eu sempre,
silêncio e solidão, sempre,
só sempre,
eu tão só.

Alma Kodiak

12 de jul de 2012




esta es una silla
sólo una silla
en ella
se sentó mi padre
mis hermanos
todos
mis mejores amigos
ahora
está sola
sin nadie
una silla

Reinaldo Pérez Só

11 de jul de 2012



não ouso sequer perturbar a tua imobilidade
escuto com toda a clareza a metamorfose
que se desenrola em ti enquanto
te desamarras e rompes o rodeio

estremeces-me brutalmente
- és o único diamante que riscou a minha pele

Frederico Mira George

10 de jul de 2012




Chegas a casa com as mãos
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.

Bruno Béu

9 de jul de 2012



É como quem se olhasse
num auto-retrato antigo e fluente
Ela sabe, como eu, da abatida constelação da casa
mas enfrenta-me, acabou de nascer
e abre imensamente os olhos

A névoa abraça-nos até ao osso
respira no ferro e no granito sob todas as mãos
Estranham-me a paixão dos retratos impassíveis
não sabem como visto
numa sombra perfeitamente de mim
a cidade que parti e não conheço
e nem sequer posso esquecer

Gestos soltos noutra varanda, ao fim da mesma tarde
entre escadas e o cais e o ar e o mar
Ela sabe, como eu, tudo desta casa
mas não pára de me encarar
tudo, edificação de sombras lentamente sobre sombras
o frágil furacão que vai ficando

Estranham-me a roupa escura e os olhos claros
o camafeu que disfarça os dois seios
sim. eles estão cá, inteiros, e apenas sou
a mulher que passa pelos pátios

Por mim, distraem-me os mínimos trabalhos
certa jardinagem, grades sobre rendas
Algo sopra dos fundos dos quartos
fecha as janelas, murmura versos que não possas viver

Mas ela pinta intensamente e se assim te debruça
atravessa-te toda a água do rio
o espelho inteiro da tua vida

José Manuel Teixeira da Silva

8 de jul de 2012


Clausura...

Depositei minha alma
Na clausura da tristeza
Fechei o portão de ferro
Deixei-a em desabafo
Longe do alarido dos felizes
Neste retiro de solidão.

Cecília Vilas Boas

7 de jul de 2012



No temas al silencio cuando ya no hay palabras
en tus manos

En el desván del alma las cosas desempolvan nuevos
nombres
que habrán de obedecerte
dócilmente.

Elizabeth Azcona Cranwell

6 de jul de 2012



Amo em ti o medo
de morrer, folha
que vai caindo
no meu olhar; entre a luz
e o pó
o pó e a cal
da minha morte. Nua
e acolhida
à sombra da árvore que passa.

Casimiro de Brito

5 de jul de 2012



Gestos

Não há pressa
Os degraus, de novo, acertam passos;
volto a saber como contá-los, do sonho:
as sombras já não saltam as varandas,
as garças regressam,
volta o silêncio dos gestos repetidos.

David Fernandes

4 de jul de 2012




Morrer
depois de me despedir
das palavras, uma a uma.
E no final,
descontada a lágrima,
restar uma única certeza:
não há morte
que baste
para se deixar de viver.

Mia Couto