"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de out de 2012


Canção do futuro... 

 Por instantes adivinhou o futuro. Olhou para a porta dos fundos e se dispôs a enxergar o que alí não mais passava: os medos... as incertezas... os desatinos. Fez de conta que não sabia e continuou olhando. Pensou nos dias de chuva e de muito frio, nas noites sem estrelas e desenluaradas. Cerrou os olhos, apertou a mão contra o peito e sentiu a música. Ouviu a canção do que viria. Chorou. Derramou lágrimas de alegria. Estava feliz. Os dias dali em diante seriam azulados e durante as noites, borboletas dançariam sobre as estrelas.

  Flávia Vida

30 de out de 2012


Trabalho de parto

brotam de meu ventre
versos repulsivos
abortos involuntários
criações de assombro
incham-me o sexo
secam-me as tetas
deixando em seu rastro
nessa casa maculada
a solidão do casulo

fina casca enegrecida
hábitat de sonhos

Elizeth Serrão Rodrigues

29 de out de 2012


... sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar. 

  Al Berto

28 de out de 2012


ele disse: acredito na paixão inocente, naquela que se pode viver em segredo, que não magoa mais do que a nós próprios que a sentimos.

ela disse: às vezes penso que o destino cruza caminhos em tempos errados. desejamos pessoas nos tempos errados. sentimos saudades quando já é tarde.

ele disse: talvez porque precisamos de ser avisados constantemente que podemos mudar de trajectória.

ela disse: talvez porque mesmo que sentados aqui, para sempre, possamos acreditar que podíamos estar em outro lugar, e sermos completamente diferentes.

  Mia

27 de out de 2012


Desci um milhão de escadas

Desci, dando-te o braço, ao menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás é o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve nossa longa viagem.
A minha dura ainda, mas já não me ocorre pensar
nas conexões, nas reservas,
nas ciladas, nos vexames dos que crêem
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja melhor.
Contigo as desci porque sabia que de nós dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que tão ofuscadas,
eram as tuas.

Eugenio Montale

26 de out de 2012


um rosto… 

 abriram-se as cortinas da cidade, 
a nudez foi presença nas ruas acorrentadas. 

 sobraram horas geradas no ventre da noite, 
e, amadureceram na encruzilhada sem nome. 

 espia pela fresta o frio da extinção. 
toca nos dedos hirtos
 inflamados, 
espinhosos. 

 um rosto denso de raízes, 
com faróis presos ao silêncio, 
esmaecesse no espelho da idade. 
há desejos húmidos 
refletidos em sonhos seculares 

 soam vozes semeadas nos espaços imaturos. 
amadurecem os brilhos 
de um verão resistente. 
é amarga a linha da verdade 
e confusa a palavra ramificada. 

 melodias esborram no sangue que jorra 
com sabor a morte certa… 

 o rosto desvanecesse nas cortinas renegadas!

  helena maltez

25 de out de 2012


não te oiço e é como se me achasse dentro de um templo fechado. 
o silêncio é a obra através da qual se descobre a memória 
e à falta de toque, só o teu nome pronunciado 
e a  fé na tua aparição ilumina as arcadas. 
a tua ausência tem-me o corpo vazio, 
falta-me o milagre da presença
 poderia chamar-te deus
 estás aqui latente
 mas não estás. 

  André Tomé

24 de out de 2012


são as mulheres que 
fazem chorar as cebolas 
como se descascassem a própria vida 
e, arredondando-se então, descobrissem 
um corpo, o seu 
uma vida, a sua 
e, no entanto, nada que de verdade 
pudessem seu chamar 
ou talvez sim, mas só 
aquela gota de água salpicando 
um canto do avental onde 
desponta uma flor de pano colorida que 
ainda ontem ali não ardia 

  Bénédicte Houart

23 de out de 2012


El Puente 

 Si me dicen que estás al otro lado  
De un puente, por estraño que parezca 
Que estes al otro lado y que ne esperes, 
Yo cruzaré ese puente. 
Dime cuál es el puente que separa 
tu vida de la mía, 
en qué hora negra, en qué ciudad lluviosa, 
en qué mundo sin luz está ese puente
 y yo lo cruzaré. 

  Amália Bautista

22 de out de 2012


Saudade
 
 Ter saudade 
é vaga disforme de um corpo. 
Ter saudade 
é pássaro que aparece e se apaga 
erguido de confusão 
na angústia, teste dado à natureza
 bruxuleante dentro de mim. 
Ter saudade 
é fingir qualquer coisa que inquieta, 
levantada, desenterrada do crivo da memória. 
Por vezes quando o tempo por ela passa não passa 
o tempo da saudade, 
estátua rígida dum destino anoitecido, 
passa um nada meio acontecido. 
Saudade, 
é filha da alma do mundo 
que de tanto ser outro 
sou eu já. 
Saudade, 
porque viajas cansada 
em horas dentro de mim? 
Saudade 
que vieste até à última força desta linha, 
brumosa da eterna caminhada. 
Sempre que vieres 
sem avisares 
leva-me contigo 
para que a paz volte 
à memória de meu corpo 
como o rio que passa 
no tempo final da minha natureza. 

  Carlos Melo Santos

21 de out de 2012


Palavras e silêncios dentro de mim 

 Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim 
(...)
 Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
(...) 
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce
(...) 

  Adolfo Casais Monteiro

20 de out de 2012


Da maneira mais simples 

 É apenas o começo. Só depois dói, 
e se lhe dá nome. 
Ás vezes chamam-lhe paixão. Que pode 
acontecer da maneira mais simples: 
umas gotas de chuva no cabelo. 
Aproximas a mão, os dedos 
desatam a arder inesperadamente, 
recuas de medo. Aqueles cabelos, 
as suas gotas de água são o começo, 
apenas o começo. Antes 
do fim terás de pegar no fogo
 e fazeres do inverno 
a mais ardente das estações. 

  José Fontinhas

19 de out de 2012


Anda! 

 Anda, 
meu pé ferido, 

 [...]

 anda, caminho 
em ti montado a pelo, 
anda, memória 
em viagem 
selada na carne. 

 Ao longe 
nem fumo, nem lume 
à vista: anda, 
ainda não estás
 em casa. 

  Age de Carvalho

18 de out de 2012


quando me perguntam
 "o que fazes?" 
há sempre um silêncio breve 
 que antecede a resposta... 

 há um desencontro muito grande 
entre o que faço e eu 

 ando sempre desencontrada de mim... 

  sophiarui

17 de out de 2012


Nunca 

 Nunca mas nunca será ela capaz 
de andar 
da mesma forma que foi capaz
 de sulcar os espelhos

  Vasko Popa

16 de out de 2012


Esse lado de mim 

 Esse lado de mim que vive
 Desejando partir 
É minha metade forasteira, 
Selvagem e traiçoeira... 

 Chega ansiando ir embora, 
Parte pensando em voltar, 
E amarga uma impaciência que não controla... 

 Esse lado de mim que passeia pela vida 
Sorrindo diante do intocável, 
Brilhando olhos de lobo, 

 Voz mansa quebrando o silêncio, 
É a parte de mim que não sabe o que quer, 
Minha metade cansada, 
Frágil e sensível... 

 Deseja ser guiada por um sonho, 
Brincar na memória de alguém, 
Ser parte eterna de uma alma 
Que já aprendeu a amar... 

  Débora Böttcher

15 de out de 2012


Porque é que este sonho absurdo 
a que chamam realidade 
não me obedece como os outros 
que trago na cabeça? 

 Eis a grande raiva! 
Misturem-na com rosas 
e chamem-lhe vida. 

  José Gomes Ferreira

14 de out de 2012


Comigo me desavim 
sou posto em todo perigo 
não posso viver comigo
 nem posso fugir de mim 

 Com dor, da gente fugia, 
antes que esta assim crescesse: 
agora já fugiria 
de mim, se de mim pudesse 

 Que meio espero ou que fim 
 do vão trabalho que sigo, 
pois que trago a mim comigo, 
tamanho inimigo de mim. 

  Sá de Miranda

13 de out de 2012


Num espaço falso entre o que fui e o que sou 
perduram as frases que eu não disse 
aqueles gestos que eu não quis fazer 
e toda a história da minha vida 
que o destino não pôde escrever. 

  Olavo Rubens

12 de out de 2012


Mudando-me a mim? 

Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela? 
O sono do tapete? 
O universo diário 
do quarto alugado, 
as molduras que 
cercam, resguardam 
naturezas mortas, 
paisagens imóveis? 
Aceito a minha vida? 
Ou mexo no candeeiro, 
desvio-o alguns centímetros 
na mesa, altero 
as relações das coisas, 
afinal tão frágeis 
que o simples desvio 
dum objecto pode 
romper o equilíbrio?
 Pego no telefone 
e grito ao primeiro 
desconhecido: ouves-me? 
Ou deixo tudo 
tal como está, 
medido, quieto 
no rigor do quarto, 
e eu hesitante 
entre o soalho e o tecto? 
Desloco o cinzeiro 
sabendo que posso 
matar mandarins, 
provocar cataclismos, 
fracturas, amores, 
eclipses, sonhos, 
com a ponta dum dedo? 
Ou apago a lâmpada 
eléctrica e entro 
no mesmo torpor 
que as flores do tapete, 
a fruta dos quadros, 
o frio, o bolor, 
no chão, nas paredes, 
o poema na mesa, 
a mesa no espaço 
do quarto comprado 
mês a mês? Confundo 
o aluguer e o tempo, 
deixo-me ser 
em cada milímetro, 
em cada segundo, 
do quarto, da vida, 
o outro objecto 
chamado inquilino? 
Ou desencadeio 
a insurreição 
mudando de sítio 
o meiple, a cadeira,
 mudando-me a mim? 

  Carlos de Oliveira

11 de out de 2012


Trabalho

 Outrora 
a minha vida era fácil. 
A terra dava-me flores frutos abundantes 

 Hoje arroteio um terreno seco e duro.
 A enxada  bate em pedras, em tojos.  
Tenho de cavar fundo, 
como quem busca um tesouro. 

  Umberto Saba

10 de out de 2012


Saudade

 Há vinte anos não ponho nos teus olhos, 
numa carícia azul, o meu olhar. 
Nunca mais tuas mãos fortes e esguias, 
aquecerão as minhas. 
A saudade, esta aranha tecedeira, 
arma, de novo, o nhanduti do sonho 
com o mesmo fio de outrora. 
E a alma se enreda na trama sutil, 
como se fosse agora. 

  Helena Kolody

9 de out de 2012


Sobre a dor 

 Dor que cala 
prende choro 
revira a vida, 
vira mágoa. 
Dor bonita 
é dor vivida
 escrita, 
esquecida, 
em estado de
 l á g r i m a. 

  Priscila Rôde

8 de out de 2012


A Partida

 Duas mulheres jogavam as cartas. 
Eram as duas formosas e perversas. 
As duas faziam batota. A partida 
prolongava-se mais do que o costume, 
a julgar pelos gestos de impaciência 
que nenhuma ocultava. Vida e Morte 
se chamavam. E tinham apostado 
o coração de um homem, como sempre. 

  Amalia Bautista

7 de out de 2012


Dorme, amor!... 
Uma estrela nascente 
Treme, suave, quando vem o vento leve. 
Vibrando com o frio, o portão 
Desenha os seus contornos no crepúsculo. 

 Dorme!... Esta noite serei uma pomba, 
Descerei, leve, sobre a tua cortina, 
Para sobre o peito te cruzar as asas, 
E sem ruído,depois, te abraçar.

  Illé Tuktash 
 (trad. Maria Etelvina Santos)

6 de out de 2012


Cantiga sua partindo-se 

 Senhora, partem tão tristes 
meus olhos por vós, meu bem, 
que nunca tão tristes vistes 
outros nenhuns por ninguém. 

 Tão tristes, tão saudosos, 
tão doentes da partida, 
tão cansados, tão chorosos, 
da morte mais desejosos 
cem mil vezes que da vida. 
Partem tão tristes os tristes, 
tão fora d' esperar bem, 
que nunca tão tristes vistes 
outros nenhuns por ninguém. 

  João Ruiz de Castelo-Branco

5 de out de 2012


Intermédio romântico 

 É diáfano o crepúsculo. Parece 
de brilhante cristal, e abre no céu 
uma ágata de luz e é como um véu 
em que o ar azul da tarde desfalece. 

 Em âmbares cloróticos decresce 
o pôr-do-sol; a as nuvens, longe, ao léu, 
são flores de um fantástico vergel, 
quando uma estrela, pálida, aparece. 

 As aves lentamente se recolhem; 
a sombra avança, e entre purpuras, erma 
a noite - as mãos da noite estrelas colhem... 

 Deixo que meu espirito adormeça 
e penso em teu olhar que canta a emberça, 
teus olhos tristes de esmeralda enferma. 

  Luís G. Urbina

4 de out de 2012


Fuga para a eternidade

 Caminhando lentamente 
 irremediavelmente para a morte,
 só quero, entretanto, 
ir tocando esta luz, esta semente, 
esta terra; 
ir sentindo o sabor 
 desta fruta recém-colhida, 
e deste lábio que a noiva oferece 
 com a sua profunda delícia, 
para quando chegar a hora da fuga 
 inventar nesta eternidade 
 o beijo 
   o fruto 
 e o poema 

  José Luis Diaz-Granados

3 de out de 2012


Canção tão simples 

 Quem poderá domar os cavalos do vento
 quem poderá domar este tropel
 do pensamento 
à flor da pele? 

 Quem poderá calar a voz do sino triste 
que diz por dentro do que não se diz 
a fúria em riste
 do meu país? 

 Quem poderá proibir estas letras de chuva 
que gota a gota escrevem nas vidraças 
pátria viúva 
a dor que passa? 

 Quem poderá prender os dedos farpas
 que dentro da canção fazem das brisas
 as armas harpas
 que são precisas? 

  Manuel Alegre

2 de out de 2012



Esquece o que eu escrevi, deita-te aqui perto 
e ouve só as minhas palavras sem sentido, 
o balbuciar que eu solto antes da voz, 
tudo o que há tanto tempo trago preso na garganta. 

 Nem o ritmo da cantilena aprendida na infância, 
nem a música da poesia: 
 ouve apenas o balbuciar, o sopro antes da voz, 
quase um estertor, mas a dizer agora 
que estamos vivos. 

  Luís Filipe Castro Mendes