"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

12 de out de 2012


Mudando-me a mim? 

Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela? 
O sono do tapete? 
O universo diário 
do quarto alugado, 
as molduras que 
cercam, resguardam 
naturezas mortas, 
paisagens imóveis? 
Aceito a minha vida? 
Ou mexo no candeeiro, 
desvio-o alguns centímetros 
na mesa, altero 
as relações das coisas, 
afinal tão frágeis 
que o simples desvio 
dum objecto pode 
romper o equilíbrio?
 Pego no telefone 
e grito ao primeiro 
desconhecido: ouves-me? 
Ou deixo tudo 
tal como está, 
medido, quieto 
no rigor do quarto, 
e eu hesitante 
entre o soalho e o tecto? 
Desloco o cinzeiro 
sabendo que posso 
matar mandarins, 
provocar cataclismos, 
fracturas, amores, 
eclipses, sonhos, 
com a ponta dum dedo? 
Ou apago a lâmpada 
eléctrica e entro 
no mesmo torpor 
que as flores do tapete, 
a fruta dos quadros, 
o frio, o bolor, 
no chão, nas paredes, 
o poema na mesa, 
a mesa no espaço 
do quarto comprado 
mês a mês? Confundo 
o aluguer e o tempo, 
deixo-me ser 
em cada milímetro, 
em cada segundo, 
do quarto, da vida, 
o outro objecto 
chamado inquilino? 
Ou desencadeio 
a insurreição 
mudando de sítio 
o meiple, a cadeira,
 mudando-me a mim? 

  Carlos de Oliveira

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Não creias nos meus retratos, nenhum deles me revela.
Os meus retratos são vários e neles não terás nunca o meu rosto de poesia.

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