"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30 de nov de 2012


não acredito no futuro. há muito que deixei de lutar por ele. luto pelo presente. porque os dias mais belos são esses onde construímos casa e existimos para sempre - o presente é nosso. o futuro não acontece. existe para termos esperança. e a esperança é o consolo dos frágeis - sou frágil. por dentro da pele nenhum presente se vive porque o coração não renuncia à esperança - gostava de inventar dias mais felizes - às vezes. fico neste estado amorfo. e a vida passa por mim e eu sem gesto. nem palavra. nem silêncio - às vezes não existo. estou sem esperança. vou para longe -

mar

29 de nov de 2012


Regresso

Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço

Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais

Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende

 Alberto de Lacerda

28 de nov de 2012


Suite número seis

É um grande incómodo não saber tocar
violoncelo que o pranto seria doutra
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado – a dor
em arco – ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda – se nunca lhe achei
o préstimo – que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.

 António Gregório

27 de nov de 2012


Passeio

Hoje visitei a beira do abismo
Eu e meu jeans

No fundo, sempre achamos que o tempo não iria passar

Acocorei-me sobre o limbo que cobria o chão que pisava
Abotoei uma borboleta amarela na lapela
Cobri-me daquele sol desbotado e velho
Apanhei um cogumelo solitário que insistia em crescer na pedra
Cheirei duas nuvens passageiras
Mas resolvi não olhar para o espelho do mar

E o azul acima da minha cabeça sempre me desafiando

Resolvi seguir pra lá

Estou cansado de tentarem me convencer que envelheço

Celso Mendes

26 de nov de 2012


O meu corpo

o meu corpo
como se fosse o cálice
o meu sangue como se fosse o vinho
estas as palavras da vida eterna
até que dure
o sopro que as insufla
do pó em que se desfazem
esse pó que enegrece o cálice
o cálice donde escorre o vinho.

 Ana Paula Inácio

25 de nov de 2012


Não pensava em ti,
Não fui atrás de ti,
Não te esperei.
Ao encontrar-te
repentinamente
penso em ti
estou em ti
tu pensas em mim
tu estás em mim.
Somos UNO!
Nos pertencemos
e pertencemos ao Mundo!
Na mesma Luz Azul que 
nos envolve e UNE!

 DebbyeBlue

24 de nov de 2012


Anti-elegia 

a dor 
sobrepõe-se ao silêncio
quase religioso
do azul sem nuvens 
que 
opressivo 
derrama-se 
sobre o vidro da janela

corrói e corrompe
conspurca a beleza do instante

numa concretude impalpável
indizivelmente real

 Márcia Maia

23 de nov de 2012


Estrangeiro

navego
por entre areia e fumaça
a deslizar as lágrimas
e o fogo
dos não olhares.

as águas nas fatigadas asas
buscam teu porto;

comigo
o peso de mágoas,
alguns cacos,
poucos sonhos
e a mudez das pedras pensantes.

palavras
apenas
pegadas
(rastro
de pó
em oceano)

a ti,
que me esperas
e me desconheces,
ofertar-te-ei
o meu mais belo silêncio
e este vazio onde descanso
para partilharmos
sós.

Celso Mendes

22 de nov de 2012


Então para os outros sou aquele estranho que surpreendi no espelho: sou ele e não eu, tal como me conheço! Sou aquele estranho que, à primeira vista, não reconheci. Aquele estranho que não posso ver viver a não ser assim, num instante inesperado. Um estranho que só os outros podem ver e conhecer. 

  Luigi Pirandello

21 de nov de 2012


Tratam-me como se fosse uma daquelas bonecas baratas, que se recebem de duas em duas semanas quando a nossa tia favorita nos vem visitar. Aquelas em que pegamos, achamos graça e brincamos com elas, até nos fartarmos e querermos outra. Aquelas que, depois de perderem a graça, não passam de mais uma na nossa enorme colecção de figuras imóveis. Não percebem o sofrimento dos que são condenados a ser bonecas sem o quererem. Porque mesmo eu, boneca que sou agora, tenho sentimentos [ou pelo menos o que resta deles]

 E bonecas também choram, nem que sejam lágrimas de plástico... 

  Inês

20 de nov de 2012


Eu só de luz me sustento
de corpos, rostos irradiantes.
Chega de coisas baças.
Mas adiante.

Apenas quero das horas
o instante
a cada instante.

Helga Moreira

19 de nov de 2012


Regras do esquecimento

Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
... e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras.

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.

 Vasco Gato

18 de nov de 2012


A minha memória não é uma fonte de sofrimento. 
Certas partes são como uma loja de penhores, outras como um aquário, outras como uma despensa. Julgo que há um sítio onde a memória se distorce como as imagens nos espelhos de feira e é essa a área que mais me interessa.

  Tom Waits

17 de nov de 2012


Como se fosse a minha vida

De noite não escrevo cartas,
qualquer que seja a luz, para onde quer que seja.
E já não me assusta o elevador
vertiginoso, desde que o sono
me habituou à queda.

Na luz do fim da tarde agora brilha
para sempre a minha varanda amarela.
Campos salgados, colinas esburacadas,
já não me assustais.

Como se fosse a minha vida,
fecho as janelas, vou comendo
pão, poupo energia.

 Hans-Ulrich Treichel

16 de nov de 2012


As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

 Pedro Mexia

15 de nov de 2012


Oásis

Sou um piano 
esquecido na garganta do mar
entre as ondas aqueço uma canção anoitecida

o tempo dedilhando notas geladas
atravessa meu corpo com a música da morte.

Amadureço uma canção no ouvido dos búzios.
A canção das praias alargando o coração,
palpitando no vazio.
A luz entardece as lágrimas da aurora.

Galopa um cavalo em meu coração
sua crina acende a liberdade em meus olhos de cinza
corcel das ondas batendo contra o tempo
ecos do infinito batendo no peito sedimentado à terra.

O meu nome é uma canção pronunciada do outro lado
um corpo com uma ferida coberta de sal
ardendo o sol em suas veias escuras.
Tenho apenas grãos de areia para cobrir o frio.

Uma lótus cresceu em minha língua coberta de fogo
as mãos buscam arrancá-la
desce pelos vocábulos adormecidos e os acordam.

Acendo as estrelas apagadas nos olhos da vida
depois regresso
o sangue coagulado nas nuvens é meu último poema.

Sou a xícara esquecida na chuva
gotas batem no fundo de rosas fluorescentes 
rachando o nome coberto de areia.

Busco uma lamparina ardendo no corpo da morte.

  Sandrio Cândido

14 de nov de 2012


E depois, oh! depois, sim!
vou para casa e vou pôr-me à janela
para anunciar o primeiro e o último espectáculo
da peça sem autor,
o grande espectáculo das marionetes humanas.

E haverá música
músíca
músíca
música
no violino do tempo.

Quebrarei a ampulheta do tempo!

 Mendes de Carvalho

13 de nov de 2012




Agora que não nos vemos
e as nossas vidas correm pelos dias
cada vez mais longínquas,
sinto, às vezes, uma vontade enorme
de te ver uma tarde, tomar café
contigo, saber como vais…

Agora que não nos vemos
e nos perdemos aos dois,
não penses que esqueci as tuas coisas.
Guardo boas lembranças, poemas
que te escrevi(lembras-te?); guardo
cartas e fotografias…
E um lugar
na minha alma, onde, se quiseres,
sempre, sempre podes estar.

 Abel Feu

12 de nov de 2012


Tão só quanto o lírio... 

Sós 
em 
busca 
permanente 
como 
borboleta 
procura 
sempre 
flor.
Estamos 
cada 
dia 
assim: 
Como 
lírio, 
que 
só 
nasce 
só 
acaricia 
terra.

 Grácia Passos

11 de nov de 2012


Palavras 

Para me suportar
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.

Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.

Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas.
Ou o nada.

Dimas Macedo

10 de nov de 2012


Este choro que arranha e lava

Tirava os quadros da parede. Voltava a pendurá-los. Olhava. Mas quem lhe diz que visse. Repetia a mesma faixa do disco. Escutava. Mas quem lhe diz que ouvisse. Queria chegar a uma conclusão, isto podemos afirmar sem dúvida. Mas quem lhe diz que houvese. E quem lhe diz que fizesse diferença haver ou não haver. E quem lhe diz que todo o caminho não fosse exactamente não chegar. Ninguém lhe diz. De facto, ninguém lhe diz.

Toda a vida tentara entender a vida, vivê-la como idéia que pudesse pensar. Só agora percebia que a vida era outra realidade. Uma brisa inesperada na face. Uma areia encravada sob a pálpebra. Nada que alguma vez tivesse pensado. Esta lágrima. Este choro que arranha e lava.

Jorge Roque

9 de nov de 2012


eu durmo comigo

 eu durmo comigo/ de bruços deitada eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado.

  Angélica Freitas

8 de nov de 2012


Visita 

Que ela chegue
sem clarins ou trombetas,
entre como facho de luz
pelas gretas da janela
e atravesse o quarto
na sua claridade.

Que ela chegue
inesperada,
como a chuva
na tarde calorenta
e faça subir o odor
de poeira molhada.

Que ela chegue
e se deite ao meu lado,
sem que a perceba.
Que me lave
com água da fonte
e me cubra
com o bálsamo branco
do silêncio.

Donizete Galvão

7 de nov de 2012


Procurei 

 Parei em frente da porta de casa e pus-me à escuta. Continuava a ouvi-los. Se não soubesse que se produziam uivos dentro da casa talvez não os tivesse ouvido. Mas, sabendo, ouvia-os. Não sabia bem onde é que estava. Procurei, entre estrelas e constelações (...) Enquanto andava não os ouvia, por causa do barulho dos meus passos. Mas assim que parava, voltava a ouvi-los, claro que cada vez mais fracos, mas o que é que interessa que um grito seja fraco ou forte, o que interessa é que pare. Durante anos pensei que iam parar. Agora já não. Talvez tivesse precisado de outros amores. Mas o amor não é coisa que se encomende.

 Samuel Beckett

6 de nov de 2012


Encrucijadas

El corazón deja de latir
(a veces hasta el reloj se para)
encogido
de miedo.
Pero más allá de ese abismo
sigue latiendo la vida,
intacta,
con todas sus promesas.
Sólo hay que seguir caminando
un
            poco
                        más.

 Berna Wang

5 de nov de 2012


Segredo
                                    
É este o meu segredo -
fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.

Sem mover os dedos,
sem abrir os lábios,
irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se
apaga,
à beira de um rio negro,
quando o coração pára.
Serei apenas um homem sem nome,
caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade
que devora a sua luz.

Não quero ser mais nada.
Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro
me perdi.

 José Agostinho Baptista

4 de nov de 2012


Há um país antigo que se abriga em mim 
um país de que não me lembro
senão de mim menina, uma língua de sol e água
que se cola à minha pele, obstinadamente
quer ser tempo em mim, quer ser boca 
procura a abertura, escorre entre as fendas 
da memória, como um pássaro de asas feridas.
Há um país antigo que se abriga em mim
E eu procuro a voz do vento que o cante, 
Nessa harpa fria que é memória minha.

 Maria João Cantinho

3 de nov de 2012


Estranha forma de vida

... Que estranha forma de vida tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
Coração independente
Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr...

 Alfredo Duarte / Amália Rodrigues

2 de nov de 2012


Estátua

Feita roda de gesso
só os pés de ouro;
como pô-la erecta
se te derrete nas mãos,
os olhos de vidro prestes a rolarem?
Deixa-a ficar de joelhos
e esquece-a.
Não quero ver-te levantar de novo
para segurá-la.

  Hristós Valavanídis 
(trad. de José Bento)

1 de nov de 2012


Os meus delírios,
confissões rimadas
de pessoas mimadas.
Preces ocas, suspiros.

Os meus assédios,
confissões caladas
de pessoas ignoradas.
Monte de sonhos perdidos.

Os meus demónios,
confissões quotidianas
de pessoas esteriotizadas
ultrapassando martírios.

Meus sentimentos doentios,
confissões irritadas
de pessoas maltratadas.
Nenhuma voz, apenas gritos.

E espero para poder falar...

 Daniel Delgado