"A todos os amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo a preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através de fotos que uso para compor esse espaço ou das notas musicais na voz de Nara Leão... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

26 de jan de 2013


Regresso

Voltei a esse lugar
onde nunca tinha estado.
Do que não foi, nada mudado.
Sobre a mesa (de oleado
aos quadrados) meio vazio
encontrei o mesmo copo
nunca cheio. Tudo
permanece tal e qual
eu o não tinha deixado.

Giorgio Caproni 
(trad. David Mourão-Ferreira)

24 de jan de 2013


Poema de despedida

folhas secas
asas de borboletas
levadas pelo vento
somos

tão frágeis
e no entanto
resistentes

flui a vida
flui o tempo
e num instante
já não somos...

fomos?!?

 Antonieta Paes

23 de jan de 2013


Excessos

Sobras-me
pelos (en)cantos
Fartas-me pelos centros,
pelos (in)ventos.

Invento-te,
invento-me,
sobras-me ao largo,
fartas-me ao centro.

Rodopio.

Invento-te.
Sobras-me.
Desfaço-te.

Como bolhas de sabão.

 Ivy Wyler

22 de jan de 2013


Poema

fome e vento sacodem,
sede e fogo me queimam
e eu nado no nada
da tua ausência -
cabeça aérea,
querência
de tuas mãos etéreas
(e e-ternas)

Maria Júlia

18 de jan de 2013


deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores

Francisco Duarte Mangas

17 de jan de 2013


Se...
Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.
Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.
Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.
Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.

Luísa Dacosta

16 de jan de 2013


Ele: Está tudo bem com os teus?
Ela: (pensando no divórcio por que está a passar, nas noites de insónia a conjecturar "e agora?", na preocupação com as repercussões na vida da filha; e ainda nas inúmeras vezes em que ela própria fez a mesma pergunta a outros, por cortesia, arrependendo-se de imediato quando confrontada com o longo e monótono desfiar dos rosários alheios) Sim, tudo bem.

Quereria ele realmente saber?

 Virgínia Jorge

15 de jan de 2013


Parte de mim

Parte considerável de mim
Quer ser a parte que perdi
Parte de mim uma estrada
Invisível por onde ando
Parte considerável de mim
Procura incessante outro caminho
Parte quer achar o ninho
Resoluta parte do destino
E quer apagar a solidão 
Parte considerável de mim
Quer chorar e sorrir
Parte de mim, uma parte que não fui
Parte espera há longos anos
Há tantos anos quantos sonhos
Parte de tantas parte um fio
Que me une e me impulsiona
A esta parte indissolúvel
Indescritível, indestrutível
De todas as partes que se foram
Partes ficaram e se aglutinam
Se amontoam e se refazem
Nesta parte a que eu mesmo
Não sabia pertencer
Nesta metamorfose
Sabe-se lá que parte acordará amanhã
E vai querer repartir meu destino
Espero pacientemente em parte...
Sem repartir as horas
Sem apagar os sonhos
Sem despedir ilusões
Sem cometer o afobo de partir 
Sem a parte que acordará em mim.

 Carlos Gildemar Pontes

14 de jan de 2013


Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira

12 de jan de 2013


Não pensem que...

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque os dias me açoitam
E as noites me agitam.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque lá fora o mundo se atropela
E agente anda aturdida.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque em Agosto choveu
E o mar estremeceu.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque os olhos do vento
Se esbugalharam contra os meus.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque o Gaio deixou de cantar
E a seara não deu trigo maduro.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque ser amigo demora
E as palavras deixaram de ser sentidas.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque desacreditaram os poetas
E esqueceram as laranjas da madrugada.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque uma árvore morreu queimada
E a rosa murchou no umbral da tua casa.

Não pensem que vou desistir da vida.
Não pensem que vou desistir da vida.
Sobra-me o espanto e tanto atrevimento.

Maria José Areal

11 de jan de 2013


O rosto

Dá-lhes o mais parado rosto
o que no mundo acompanha a
dispersão do nome

Guarda para ninguém o teu rosto sob a fala

Maria Andresen

10 de jan de 2013


amanhã vai ser um outro dia...

o que fazer em um dia cinzento como esse?

perguntou um dos passarinhos do bando
aos seus demais companheiros

ah... 
pensar que as carregadas nuvens de hoje
podem não ser as mesmas de amanhã...

respondeu o mais ligeiro antes mesmo que
os demais, que ainda procuravam dentro de si
mesmos uma resposta, formulassem outra
pergunta ainda mais complexa...

 Flávia Vida

9 de jan de 2013


Bordadeira

... Passa horas
no quarto de costura
bulindo no cesto de letras...
Em silêncio
alinhava sílabas
costura versos
borda palavras

 Valentina Diadory

8 de jan de 2013


Tão pouca luz no quarto

entra tão pouca luz no quarto,
o ocre antigo das paredes desliza pelo chão
e despe-se nas minhas pernas,

não sei se o sol nasce ou morre,
no meu corpo indecifrável
o mundo parte devagar

e os sons para trás acomodam-se no meu ouvido
como finos vapores húmidos,
sem dia, sem noite, apenas as horas ficam,

e o meu peito adormece.

Alma Kodiak

7 de jan de 2013


Um campo batido pela brisa

A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

 Fernando Assis Pacheco

6 de jan de 2013


Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque. 

  Aasne Linnesta

5 de jan de 2013


Os dois lados

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes e movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo a minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.

 Murilo Mendes

4 de jan de 2013


Escuro 

Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.
Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.

 Rui Pires Cabral

3 de jan de 2013


Renúncia

Que me perdoe
Esse átimo de saudade
Que insiste em tudo
Mais perto.

Minhas distâncias
São insolúveis.

E sobrevivem em mim,
Fundas.

Cheias de importância.

 Priscila Rôde

2 de jan de 2013


Ventania

Assovia o vento dentro de mim.
Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

 Eduardo Galeano

1 de jan de 2013


Fica

Fica comigo, não me deixes,
a minha vida é tão vazia
que só tu, orgulhosamente humilde, me podes ajudar
a não perguntar mais nada.

Fica comigo, não me deixes,
tem pena da minha impaciência
que, rabiscada no diário de bordo de um navio-prisão,
perdurará até à eternidade.

Fica comigo, não me deixes
não conheces a raiva e nem a tua raiva durará para sempre –
e para onde irias, como te sentirias
quando estivesses farta? Espera um pouco, espera,
espera pelo menos até
que o carteiro chegue com as cartas que só a ti pertencem.
 
Vladimir Holan